22 de abril 2019
Esta história é diferente das demais por quatro peculiaridades
1. Em dezembro de 2018, quando li para este ex-aluno a forma como vejo e participo de parte da história da vida dele, Leo ficou emocionado com a narrativa, me pediu para revelar seu nome e postar sua foto aqui no site. Assim, farei.
2. Leopoldo tinha mais comprometimentos que D.M.O. (Primeiro Sucesso de Inclusão) https://inclusaopositiva.com.br/primeiro-sucesso e S.M.J. (Segundo Sucesso de Inclusão); https://inclusaopositiva.com.br/segundo-sucesso
3. Entrou para uma escola especial antes de completar 2 anos de idade. Os demais já estavam com mais de 7 anos;
4. Foi a família que, em uma conversa informal, comentou comigo que gostaria que a criança fosse alfabetizada.
Acredito que a família de Leopoldo Badico o levou para uma escola especial na tenra idade por apresentar comprometimentos visíveis, diferente dos dois alunos das histórias anteriores: D.M.O. e S.M.J.
Sua paralisia cerebral, ou para quem prefira outro termo, Encefalopatia Crônica da Infância, se deu por prematuridade. Como consequência, Leopoldo apresentava dificuldades na mastigação e no desenvolvimento motor. Tinha déficit de atenção e hipertonia. Apresentou pneumonia e outras doenças que o levaram a várias internações nos primeiros anos de vida.
Teve problemas nas pernas e, por isso, só conseguiu andar sem apoio por volta dos 3 anos de idade. Leo possui dificuldade auditiva, visual e na fala, sendo necessário o uso de óculos e aparelhos auditivos. Porém, seu comprometimento intelectual parecia menor que o de D.M.O e S.M.J. Pelo que foi possível observar, parece que a diferença cognitiva é porque Leo foi estimulado pela família ainda bebê. E os demais, não.
Esclarecimento
Pela minha experiência com meus alunos e suas famílias, percebo que as gerações mais antigas recebiam o diagnóstico de seus filhos, com aquelas frases que traumatizam qualquer pai ou mãe: “Seu filho(a) tem deficiência, não é normal.” Ou, “Seu filho(a) nasceu com um problema. Parece que não vai viver muito tempo. Então, nem precisa fazer muita coisa porque não existe cura para o que ele tem. Nada do que vocês fizerem vai melhorar muito a situação dele”.
E ao escutar estas frases e outras semelhantes (que hoje nos soam absurdas, mas ainda são ditas por alguns médicos), muitos familiares não faziam nada por seus filhos. Simplesmente os deixavam no berço dia e noite, sem estimular, sem brincar, sem se relacionar com este bebê. Poucos pais questionavam estas frases. Os bebês se tornavam crianças, mas, continuavam deixadas de lado nas atividades da família. Muitas vezes, só se buscava escola especial e tratamento, tardiamente.
Peço aos leitores para não julgarem estas famílias. Afinal, são pessoas que, humildes ou não, simplesmente não sabiam o que fazer. O rótulo de “incapaz” que a sociedade impõe é muito forte. Algumas famílias não tem força para lutar contra este estigma e acreditam que “se todos falam é porque é assim mesmo”.
Algumas histórias que conheço
História 1.família de renome em uma cidade, com ótima situação financeira. Porém, apresentar uma pessoa com deficiência para a sociedade poderia denegrir a imagem dos familiares. Era uma vergonha alguém ter nascido “doente sem cura”. Ensinaram afazeres domésticos e trabalhos manuais para o familiar com deficiência. Entretanto, poucos amigos mais próximos haviam visto o rosto desta pessoa até seu falecimento por volta dos 60 anos de idade.
História 2. Família sem recursos financeiros, mãe não alfabetizada que morava na zona rural, sem esclarecimento, sem vizinhos por perto, o posto de saúde da cidade mais próxima ficava muito longe. Situação: não ensinou a filha sequer, a usar o banheiro. Em 2014, existe uma pessoa com Síndrome de Down (com pouco mais de 50 anos), que não sabe lidar com suas necessidades fisiológicas porque a mãe acreditava que a filha era doente e não iria aprender nada.
Independente de terem curso superior com títulos em faculdades ou serem pessoas sem nenhum estudo, ricas ou pobres, as famílias antigas que questionaram as falas dos profissionais e buscaram tratamentos, conseguiram descobrir que aquele médico poderia estar enganado. Que seu filho(a) poderia aprender alguma habilidade, ainda que fosse só uma. Mesmo sabendo que não seria fácil, buscaram lutar contra o preconceito e descobrir os potenciais de seus filhos. A família de Leo pertence a este grupo, bem como a de J.M.C.. Acredito que, por este motivo, Leo conseguiu ser alfabetizado mais cedo que os colegas das histórias anteriores.
Queridos leitores, esclareço que quando digo gerações antigas me refiro a pessoas com deficiência que nasceram até a década de 1990. Até 23 anos atrás, podemos perceber que as informações de saúde e educação eram mínimas a respeito de pessoas com deficiência. O acesso à internet no final da década de 1990 é que propiciou conhecimento às famílias e mudança de comportamento. Este foi o diferencial entre as gerações antigas e as mais novas, na busca por tratamentos na tenra idade e sair às ruas, mostrando um familiar com deficiência.
Por isso, não julgo e peço que não julguem estes familiares. Os estigmas ainda são inúmeros.
Retomando...
Leo não chega a ter deficiência visual. A perda auditiva foi bem resolvida com o uso de aparelhos auditivos, sem necessitar de cirurgia, nem de tratamentos invasivos.
Seus avós o criavam desde o seu nascimento. Como já tinham idade avançada e saúde frágil, a avó comentava que seu sonho era que Leo fosse alfabetizado e desejava que isso acontecesse antes que ela falecesse. Assim, ela descansaria mais tranquila por saber que o neto poderia andar de ônibus sozinho, ir ao comércio e quem sabe até trabalhar.
A avó de Leo era aquela pessoa simples, doce e sábia. Sabe aquela idosa muito humilde e amável, que nos cativa na primeira conversa? Pois assim era Dona Lourdes. Tinha ótimo esclarecimento acerca das condições do neto e o estimulava desde que era um bebê. A família toda era muito carinhosa com ele. Ela sempre se esforçou para que Leo chegasse onde está (2018), e deve estar sorrindo muito (esteja ela, onde estiver), com as conquistas do neto. Eu adorava conversar com ela! Deixo aqui meu carinho, saudades e admiração! Como seria gostoso bater papo hoje, dialogando sobre a felicidade e sucessos de seu neto simpático.
Esta família tinha uma característica diferente das demais: eles sempre acreditaram no potencial daquela criança. Tal qual a família de J.M.C.. Diversas famílias são muito tímidas e introspectivas. Inúmeras vezes precisei apresentar o potencial dos meus alunos para seus familiares. As famílias de D.M.O. e S.M.J. pertenciam ao grupo que acredita no estigma de “incapaz” imposto pela sociedade.
Quando comentei com D. Maria que havia conseguido incluir com sucesso D.M.O. na escola comum, nossos laços se estreitaram ainda mais. Ela me contava que para estimular Leo comprava jogos de alfabetização, matemática, memória, no estilo tabuleiro (como usado com S.M.J.). Além disso, pagava uma professora vizinha para iniciar a alfabetização do neto, dois dias por semana, no período da tarde, na mesa da copa de sua casa, fazendo atividades em cadernos e utilizando livros. Mesmo com situação financeira difícil, eles investiam nos estudos do Leo.
Aceitei o convite para estar junto com eles, em uma dessas tardes da aula particular. Ela queria saber minha opinião sobre o desenvolvimento de Leo quanto à alfabetização, concentração, abstração e demais habilidades que eu pudesse perceber. Ela tinha receio de matriculá-lo em uma escola comum. E como eu já havia tido a experiência com D.M.O., ela disse que se sentiria mais segura assim.
Aos 6 anos de idade, Leo já reconhecia todas as cores, era participativo nos jogos e brincadeiras da escola especializada, adorava conversar (mesmo com a dificuldade de fala e audição), e era alegre. Apesar dos inúmeros comprometimentos sensoriais e motores que apresentava quando bebê, com os estímulos ofertados por sua família, ocorreu enorme sucesso no seu desenvolvimento. Reforço aqui a importância da participação familiar no tratamento de toda e qualquer pessoa com deficiência.
Após algumas conversas a este respeito e as duas visitas que fiz à casa deles (uma no dia em que a professora estava presente e outra no dia que a avó o estimulava com os jogos descritos acima), comentei com D. Maria que, se ela concordasse, nós poderíamos pesquisar uma escola comum, assim como aconteceu com D.M.O.
Primeiros passos para ir para uma Escola Comum
Com a anuência da avó e de Leo, voltei à Secretaria de Educação para conversar novamente com a responsável que me orientou no caso de D.M.O. Como aconteceu no Primeiro Sucesso de Inclusão, fui orientada a buscar a escola do bairro vizinho.
Desta vez, não havia problemas de violência na escola, nem vergonha por parte de Leo. A indicação para buscar a escola do bairro vizinho foi devido ao interesse que a Diretora e Supervisora (Coordenadora Pedagógica nos dias atuais), demonstravam em atender alunos com deficiência.
Como D. Maria tinha dificuldades de locomoção, com fortes dores nas pernas, eu a busquei em casa junto com Leo e fomos à escola indicada.
Fomos recebidos pela secretária. Explicamos os comprometimentos de Leo e perguntamos sobre o interesse deles em recebê-lo. A Supervisora e Diretora vieram ao nosso encontro, se mostraram muito receptivas para incluir Leo.
Tão logo encerramos a conversa sobre o histórico de vida, comprometimentos, potenciais e motivações de Leo, foram preenchidos os documentos necessários para efetivação da matrícula. Em seguida, nos levaram para conhecer o espaço físico da escola. Comentamos sobre a motivação de Leo acerca das aulas de Educação Física e que já havia participado de uma das nossas viagens para uma competição esportiva de escolas especializadas.
Foi muito bom sermos bem recebidos por todos! Lembrei-me das escolas de S.M.J., que também nos receberam com muita atenção e sensibilidade.
Após sairmos da escola nos sentimos mais confiantes, alegres e esperançosos de que tudo correria bem com a inclusão educacional de Leo. E, realmente, foi assim até que ele concluísse o ensino fundamental. Sem nenhum contratempo porque a escola já havia feito outros trabalhos de inclusão e, desta forma, estava preparada para receber “nosso menino”.
Por ser muito alegre e expansivo, seu relacionamento com os colegas foi favorecido, evitando que sofresse e ficasse abalado com o preconceito. Além, claro, da filosofia da escola que sabia preparar seus profissionais e alunos para receber pessoas com deficiência.
Desempenho de Leo nos estudos
Leo não apresentou muita dificuldade para acompanhar as turmas porque sua família continuava realizando o acompanhamento dos estudos em casa, diariamente.
Como os demais colegas incluídos, Leo continuou frequentando os atendimentos especializados de nossa escola especial no contra turno, bem como as aulas de natação e capoeira.
Quando concluiu seus estudos do ensino fundamental, sua avó já havia falecido. Ela não pode ir à sua formatura, porém, conseguiu ver seu grande sonho realizado: seu neto estava alfabetizado, andando sozinho pelas ruas da cidade, pedalando sua bicicleta pelos bairros da redondeza, indo ao mercado e o mais importante: feliz!
Seu avô ainda vive (está com mais de 90 anos), e comemora as conquistas do neto, que hoje está no mercado de trabalho, morando com parentes em outra cidade.
Finalizando, por enquanto...
Ao concluir esta história quero deixar como mensagem principal o que sempre repito para os pais com quem me relaciono: a família é a parte principal para que a pessoa com deficiência consiga se desenvolver plenamente.
Os profissionais especializados ou professores estão em contato com seus filhos apenas 4 horas a cada dia. A família está presente nas outras 20 horas. Sendo assim, quem detém a maior chance de estimular?
Estimulem o máximo que puderem seus protegidos. Se espelhem no exemplo desta família que tinha tudo para desistir de seu neto em razão das muitas dificuldades visíveis que ele apresentava desde que nasceu.
Quem olhava para Leo quando pequenino jamais imaginaria que ele conseguiria chegar tão longe.
Ensine as cores, números, letras. Mesmo que você pense que ele não está nem olhando na direção dos seus estímulos. Continue! Leo também era desatento no início, ouvia pouco, precisou de óculos desde novinho, falava com dificuldade e, nem por isso, deixou de ser estimulado pela família.
Leve-o para participar de aulas de pintura, música, esportes. São tantos os projetos gratuitos espalhados por inúmeras cidades, que basta escolher aquele que melhor atenda às necessidades de cada um.
Vai valer a pena! Pode apostar!
Acredite!
Atualizando...
Leopoldo me pediu para contar que recebeu destaque de bom funcionário na revista da empresa que trabalha em 2018. Estou super orgulhosa! Parabéns, Leo! Você é exemplo para todos nós!
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Lembre-se que a frase “vou conseguir” tem que estar na sua mente em todas as situações.
Trabalho com Palestras, Mentoria e Treinamentos de forma online e presencial.
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e o mais importante, ser feliz hoje.
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Até a próxima história!
Arquivo: Março,2014